14 de outubro de 2010

Cadeira de rodas.

O angustiado não se move.
Não tem pra quem se dirigir, apenas olha, apenas espera,
Se esconde da necessidade aparente, da luta constante do preconceito com a razão.
Perde o que ainda não conseguiu.
Vasculha o lixo da mente do condenado, se admira pois ainda há um fragmento de fé.

Ele está aprisionado na cadeira de rodas, a doença é sua algema, seu martírio, sua vergonha.
À beira das águas, espera seu refúgio, o milagre, a compaixão.
 Iludido pela enganação alheia, perde-se tempo com estórinhas pra boi dormir, perde-se tempo ainda acreditando na língua que profere mentira, que exala malícia, que escore maldade.
As trevas são suas nuvens. A única certeza de recuperação, ele espera, ele chora.


O caminho do angustiado é repleto de armadilhas silenciosas que buscam tragar-lhe a alma.
Que ingere o alimento dos ossos, sem se desviar dos seus planos maléficos, que trazem dor, e rasga o interior falido e esgotado de tanto pensar no futuro, no vindouro, no longe, no absurdo!
Ele não consegue caminhar, se afundou nas drogas, no tráfico, na bala perdida, no morro. 
Entre os barracos de madeira, nas ladeiras, nas encostas, onde se chover desaba, é o seu alicerce
a pequena chance de escapar da sociedade, da novela, do sonho de Cinderela, o barraco desaba, o sonho acaba, ele não anda, não corre... apenas está preso na cadeira de rodas da indiferença!
Do calabouço perpétuo, do olhar dos poderosos.