18 de novembro de 2011

Seria um anjo se pudesse.


A sensação era a mesma da invasão da agulha enquanto tirava sangue, as enfermeiras perfuravam certeiras, a diferença é que era permissivo. Os outros não se importavam tanto antes de invadir-lhe, eram incisivos mesmo - não lhe permitiam que dissesse não. Era sempre sim, sim, sim, SIM. Quase que em obrigação era pressuposto que ele havia aceitado sua condição, condição desconhecida dele, mas que os outros sempre reconheciam.

Pois que sua inocência era mentira: 'ninguém pode ser deste modo!', pois que ele era ninguém, sempre fora, ainda que não lhe permitissem. Era tão belo como um não em uma sala positiva, ainda contrariando o poeta e a ordem, como sempre, na rebeldia que não era heróica, era vilã. Se ao menos fosse vilão por inteiro, ainda existiria certa cota de perdão, mas também não lhe era permitido - ' Imagine só?! Idiotinha, mal?! Pudera!'. Acabava sendo nada, como sempre.

Se quer saber, a culpa também era dele. Não se bastava, nunca. Ainda que obtivesse a maior sorte do mundo, do mundo, 'Oh, mas ainda existiria o azar!' - então era incompleto. Os que não se bastam se cavam, se corroem. 'Ao menos se fosse como os outros!' - sempre se dizia, sempre lhe diziam. Estes outros intermináveis. Lhe restava certa confiança no futuro, era bem verdade, confiança de que um dia iria acontecer, sim, acontecer. Não eram poucas as vezes em que vira isso, as pessoas 'acontecem' o tempo todo... Mas ainda era parte do 'não se bastar', e talvez se corroesse novamente caso acontecesse de um dia acontecer.

Tomara Deus, algum dia os 'meio-termo' sejam permitidos, os que não escolhem, os que não germinam, os que 'caem pela metade'. Seria um anjo se pudesse, o anjo era o mínimo, era a essência. Essência não se corrói, então seria completo, pleno. Seria um anjo se pudesse.